a inPHÂME ARAPUCA ( publicado em Diário do Leste, ed.1342, 23/12/15)
A Prefeitura da falida cidade de Itaboraí, através de
Cláudio Rogério da FCI, acaba de firmar convênio com o InPHÂME e o MAST (Museu de Astronomia e Ciencias
Afins), para em definitivo surrupiar o valiosíssimo acervo da Casa de Cultura
Heloísa Alberto Torres.
É o famoso Projeto cultural
denominado “PERDEU”, pois já sabemos que este acervo irá para o Rio e não
voltará: é o vai sem volta !
Fica evidente o interesse do MAST em dar tratamento de restauro no acervo da CCHAT, vislumbrando, desde já, a incorporação deste rico material aos mais de 50 arquivos pessoais que já se encontram em seu patrimônio, na sede de São Cristovão.
Ao longo dos últimos 20 anos,
inúmeros itens do acervo da CCHAT, bem como da Igreja Matriz de S.João de Itaboraí,
a título de restauração, simplesmente desapareceram, como é o caso do vagão da
locomotiva da Leopolidna Railway em 1997 ( “provavelmente” vendido para a Pizzaria Roger de SG)...
em Visconde, 1997 em 2015 Pizzaria Roger
---o
mobiliário da CCHAT (mesas e cadeiras), cinco oratórios incluindo o da Sagrada
Família, outros objetos...
5 oratórios retirados pelo IPHAN e enviados para a região dos Lagos m 1998
... e mais recentemente os quadros de Zampière Dominiquine (Dominiquino)
datados de 1612, pertencentes à Igreja Matriz: San Jean Baptiste e o Marthyrio de
San Sebastian, tendo este último sido vendido no mercado negro para a Europa, tudo indica,
obras constantes nos inventários e tombamento do próprio IPHAN.
É preciso que alguém dê um basta
nesta sangria de nossas obras raras patrocinada pelo InPHÂME e acobertada por gestores
incompetentes como o Baleia da FCI, e seu assecla, um tal de Américo. Que venha o MP !!!
A cidade onde eu estava morando em 2009 - Caucaia, Ceará (antiga Vila de Soure)-, vinha de um momento eufórico, com o título do Brasileirão conquistado pelo Flamengo sobre o Gremio portoalegrense. Não apenas pelo fato de que o Flamengo, historicamente, é o clube de maior torcida no Estado do Ceará, mas principalmente pelo decisivo gol ter sido marcado pelo zagueiro central Ronaldo Angelim, criado na região do Cariri. Como bom rubro-negro, achei oportuno naquele momento, aproveitar todo aquele clima que contagiava a cidade, e entrevistar um dos mais notáveis jogadores do passado ,- Babá, para que ele pudesse falar um pouco sobre sua carreira, sua relação com o Clube de Regatas do Flamengo, que o projetou nacionalmente , pelo qual honrou vestir a camisa 11 por quase uma década, e sobre a recente conquista do Brasileirão. Esta entrevista já estava prometida desde 2008, mas em decorrência de um AVC que Babá havia sofrido, aguardei pacientemente esses dois anos , para enfim conhecer e prosear com aquele "pequeno notável" .
Não cheguei a ve-lo jogar no Maracanã, pois quando Babá transferiu-se do Flamengo para o UNAM do México, eu tinha apenas 5 anos de idade. Mas lembro de meu pai e tio falarem de Babá, como um meia-esquerda infernal, com futebol superior ao de Zagalo, embora todas as atenções da torcida se voltassem para a genialidade do meio-campista Dida. Contavam que nos tempos de Fleitas Solich, a dupla Joel e Babá foi determinante para desestruturar o forte esquema tático do Fluminense ( e seu sistema WM) levando o Flamengo a seu segundo tricampeonato estadual (1953-54-55).
Eu só viria conhecer (e pisar no gramado) do Maracanã aos 7 anos de idade, levado pelo meu tio, o repórter-fotográfico Ernesto Carvalho, no clássico Botafogo 3 x meu Flamengo 1, com um show à parte de Garrincha. Mas, para minha e nossa felicidade , a recuperação do acervo filmográfico dos cinejornais e do Canal 100, nos permite, hoje ver um pouquinho do vistoso e eficiente futebol jogado por Babá ( minutos 00:06, 06:02, 08:50 e 12:26), apesar da derrota rubro-negra para a equipe de Pelé.
Santos 3 x 2 Flamengo ( 12/04/59 ) Em seu úlimo ano pelo Flamengo, Babá foi decisivo durante a primeira fase do Torneio Rio-São Paulo, contribuindo para a primeira conquista de certame pelo clube da Gávea, marcando 3 gols , dois dos quais sobre o Vasco. Como dizia meu pai, chegava a ser dantesco o confronto local entre rubro-negros e vascaínos, quando Babá, com apenas 1,54 de altura fazia seus gols de cabeça nas disputas contra o zagueiro vascaíno, o grandalhão Eli (do Amparo). Falava Babá , durante a entrevista, que ele e seu pai, ajudaram a popularizar o Flamengo na cidade onde moravam, promovendo duas excursões dos rubro-negros em Caucaia: uma em 1951, ano em que Babá ainda era amador, pelo clube criado por seu pai, o Payssandú. A segunda, em 1956, com Babá já consagrado como tricampeão pelo Flamengo. Foram os anfitriões, hospedando a equipe rubro-negra na casa de seu Gadelha. Coincidentemente, morei na Rua José de Pontes, no Açude, região central da cidade, exatamente na antiga propriedade do velho Gadelha, onde havia o pé de sapoti, que Babá comenta ter sido o local onde o Flamengo se hospedou. Além de outras passagens curiosas, revelou sobre as dificuldades no início de sua carreira, e o decisivo apoio de Marinho (pai de Paulo Cesar Cajú) para que ele se firmasse como jogador e ascender às equipes de ponta do Nordeste : Ceará e Bahia. Apesar de sua baixa estatura, tornou-se exímio cabeceador, tornando-se o carrasco do São Paulo e Vasco da Gama. Em sua passagem gloriosa pelo Flamengo, Babá marcou 89 gols, tonando-se o 26º artilheiro do Flamengo. Em 1995 foi agraciado com o Troféu Belfort Duarte, concedido somente a jogadores que, por disciplina, jamais foram expulsos de campo. No ano de 2000, Babá deixou sua marca na Calçada da Fama.
Em respeito à sua memória, mantive o compromisso firmado com ele, de editar a entrevista, cortando alguns trechos de seu próprio depoimento que poderiam gerar algum constrangimento a terceiros, particularmente sobre a fama de alcaguete de seu xará , -Mário Jorge Lobo Zagalo, que entregava o nome dos colegas de equipe que fugiam da concentração para curtirem as noites cariocas. Embora cortadas estas suas falas, me atrevo ( sem romper o compromisso) de revelar que além da antipatia que Zagalo adquiriu junto aos atletas rubro-negros, por ser um dedo-duro, possuía a estranha mania de enfiar o dedo no fiofó dentro do vestiário, antes das partidas, ficando assim, dito apenas por mim.
(esse vídeo foi gravado por Maicoln e editado pelo Studio Cristiano Alleson)
Babá, muito bem humorado, me falou de sua juventude , dos bailes de forró e xaxado promovidos por seu pai, dono do clube Payssandú, e que quase sempre terminavam em pancadaria. Diziam os mais antigos, como seu Zé Américo, que o velho Gadelha, só andava com o cipó do jucá na cintura. E desses furdunços surgiu uma marchinha "pé de serra" que ficou famosa no início da década de 50 , cuja letra segue abaixo:
- ..." Lá pra Caucaia por Babá fui convidado pruma dança de xaxado na casa de um tal de Zacarias Houve uma briga, dez no chão, quinze estirados também vinte amarrados pra morrer no outro dia e só se ouvia os estalos do Jucá ( ¹ ) E os gritos : fura ele ! Bota o sangue pra qualhar e até um cabra valente lá do Iguatu da carreira e do medo trepou-se num pé de mandacaru é de morte a terra do Babá. O Babá é bom de bola e o pai dele no Jucá. O Babá é bom de bola e o pai dele no jucá. "
( ¹ ) jucá ,Ayucá, cipó mukuru : é um arbusto que associado ao sumo do juremeira produz efeito alucinógeno, muito utilizado em rituais pelos índios Tapeba, de Caucaia (antiga Vila de Soure) ... O termo AYUKÁ deriva do tupy antigo "AIUCA" que significa "espremer massa com as mãos para retirada de sumo" e alude ao preparo da bebida sagrada do ADJUNTO DA JUREMA. O radical "AYUK" no Tupy-Antigo equivale ao radical Sânscrito "YUK", com o significado de "UNIR"...radical este presente na formação de termos muito significativos como "YOGA" (no Sânscrito), "JUNGIR", "ADJUNTO", "JUNTAR" (no Português), "YOKE", (no inglês) , "JO-AYUK" (no Tupy), sempre no sentido de JUNTAR, UNIR, TORNAR UNO....Assim, alude tanto ao preparo do chá (Através da UNIÃO entre as duas plantas) como também ao que se pretende obter através da alquimia do AYUKÁ....A UNIDADE DO SER. (o cipó é duro qual o cacête baiano)
Grande craque, amigo dos amigos, pai exemplar, avô-coruja, e querido pela gurizada, Babá deixa saudades naqueles que o conheceram. Lesado em seu patrimônio por um advogado/empresário inescrupuloso, restou-lhe dos tempos áureos do futebol, a casa onde morava e seu carro. Tudo o mais, para manter sua família, foi buscar como trabalhador comum, aposentando-se pela PORTOBRÁS(não confundam com Petrobrás).
E para a imprensa esportiva, a "especializada" que costuma ser descuidada com o que escreve e que insiste em afirmar que até hoje é um mistério como se deu sua contratação ao Flamengo, em fins de 1953, o próprio Babá desfaz o mistério : Babá, aspirante ainda, encontrava-se suspenso pelo Ceará S.Clube, quando o Flamengo interessado em seu concurso desembolsou 15 mil cruzeiros para cobrir a multa contratual .
Nestes seus últimos dias queixava-se apenas das limitações físicas advindas do AVC, que o impediam de "bater os rachas" no campinho society do Gremio Caucaia e de não poder mais tocar seu projeto de Escolinha com a gurizada.
Embora eu tenha trabalhado em alguns jornais, como correspondente, pauteiro, e freela, não sou repórter e nem possuo formação em Jornalismo. Enquanto era possível (até 1985), possuía meu registro no Mtb. Com a regulamentação da profissão, enfiei minha viola no saco e fui tocá-la noutro lugar. Portanto, não esperem profissionalismo nesta entrevista feita por um simples torcedor apaixonado com a única intenção de reverenciar, ainda em vida um ídolo do passado. Infelizmente, não houve tempo hábil para que eu desse continuidade em uma segunda entrevista, já com todo o seu acervo de jornais e fotos . Fui informado recentemente que um"malandro" apossou-se indevidamente deste acervo de Babá. A entrevista foi concedida pelo querido Babá (ou Anão Zezinho) , no dia 9 de dezembro de 2009, tres dias após a conquista do Brasileirão pelo CR.Flamengo. Quatro meses depois desta entrevista (sua penúltima), em 08 de abril de 2010, dia de concentração, Babá partiu ao reencontro com seu amigo Dida para um rachão lá no céu...
O Delegado Federal made in
Paraguay e seu boné de vigilante
Com a brisa que vinha da praia , estirado na
rede e saboreando um bom vinho , ao som de "Lago azul de Pacarahy", admirava as
beldades que transitavam pela rua José de Pontes, em Caucaia, Ceará : esta era
a minha vidinha boa de turista recém-chegado. Sabia o horário de cada uma delas: da que ia ao culto, da delicinha que ia ao treino do taekendo, da que buscava o irmão na creche... Era bom demais para ser verdade e
muito suspeito para perdurar por mais tempo.
Quando criança, lá pelos 7 de idade, fora
inoculado por um vírus , contra o qual não havia (e ainda não há) antídoto.
Tratava-se de uma variação agressiva originária de um surto endêmico ocorrido
em 1848 : era o vírus de Marx/Engels, resistente e renitente. Reaparecera 111
anos mais tarde através de um agente patogênico conhecido como CHE, o Guevara.
Cresci acompanhando sua trajetória revolucionária,
colecionando desde recortes de jornais
os quais colava nas portas de meu guarda-roupas, juntamente com as fotos de
Dida e Garrincha, do escudo do Flamengo e uma flâmula da Portela. Imaginava
crescer e poder cultivar uma barba igual a sua. Era meu ícone, meu ídolo, meu
herói, já aos 7 anos de idade. Isto, um ano antes de deixar de ser um ‘cristão’
praticante.
Estava em pleno ano de 2007, e já estava
cansado de ver o ideário pelo qual tanto lutei ser jogado na lata do lixo da
História, por conta de desvios à direita. Isto me causava uma enorme
frustração.
Achei que poderia ir mesmo contra minha
própria natureza, abandonar a luta e gozar dos prazeres da vida. Bem que
tentei, mas o ensaio durou apenas três meses.
Enquanto consumia meu vinho e admirava as
mulheres, fui me dando conta que um outro espetáculo se tornaria parte da minha
rotina: contrastando com a beleza feminina, circulava diariamente em minha rua,
e de mãos dadas, miséria e corrupção, rumo ao hospital público. Era um
espetáculo deprimente.
Não tardou para que eu aposentasse minha
bermuda colorida de “garoto eu vou pra Califórnia...” e me reengajasse no
ativismo militante. Quando me vi, em menos de um mês, ‘estava Relator’ de uma
Conferencia de Saúde, no CEFE da Praia
do Icaraí, diante de 600 delegados, de dedo em riste denunciando o Secretário
de saúde, um velho proxeneta que enriquecera às custas do sucateamento da saúde
pública e da doença do povo. Julho de 2007 e esse era eu, inoculado e febril !
O segundo passo seria rastrear o desvio das
verbas públicas e seus responsáveis.
Assim, todas as manhãs ia até o trailer da
pracinha, em frente à Câmara de Venéreança, tomar apontamentos, observar as
articulações, a movimentação do entra-e-sai nos corredores do submundo da
política. Sempre na companhia da inseparável latinha de Antarctica gelada.
Logo descobri um artifício, uma artimanha do
Executivo Municipal para ampliar seu prestígio, fazer caixa-extra(o 2) e
fortalecer sua nominata pré-eleitoral: consistia em fazer com que alguns dos
venéreadores sobre seu jugo entrassem em licença remunerada dois dias antes do
recesso parlamentar. Assim os suplentes assumiriam, adquirindo status de
titular, salários, duodécimos e verbas de representação em plenas férias, sem
trabalhar. Uma calhordice ! Saíam pelos bairros inaugurando obras inacabadas,
numa clara afronta às normas da legislação eleitoral. Com isto as despesas da
Câmara aumentavam em um terço exatamente nos meses em que não funcionava.
Não prestou! Na volta do recesso, início de
agosto, preparei um requerimento de informações e comecei a perturbar, cobrando
respostas. Naqueles dias, a Câmara havia alocado como assessor especial, um
delegado federal, cuja finalidade era manter no cabresto, rédea curta, os 14
venéreos do legislativo, em sessões extraordinárias na calada da noite. E foi
ele que por quinze dias tentou me cozinhar com respostas evasivas. Até que me
emp...ci e reencaminhei a consulta à mesa do Promotor do MP (Mui Digno Dr.
Eloílson Landim), que acolheu a representação, prometendo ir fundo. E foi!
Tres meses após a denúncia feita sobre os
proventos pagos de forma imoral e ilegítima, o MP constatou outras tantas
irregularidades. A denúncia inicial foi útil , mas era apenas o rabicho de uma
falcatrua maior que gerou um processo investigatório de um esquema milionário
com locação de veículos. Em 9 de dezembro o Tribunal de Justiça batia o martelo,
afastando os 14 venéreadores de seus mandatos. Esta é uma história longa, de
cassação de mandatos, liminares de recondução, impugnação de candidaturas
....que durou 5 anos até que em 2012, com a Lei da Ficha Limpa os 14 párias se
tornaram inelegíveis.
este pulha PCdoB teve participação no planejamento dos atentados
Desde o início eu já era ‘persona non grata’
na cidade, vigiado dia e noite. A primeira abordagem foi através do GTA, grupo
tático da PM cearense. Sábado, 10 da manhã, estava eu sentadinho, bebericando
minha Antarctica quando duas viaturas do GTA, em uma operação típica de tropa
de elite, invadiram a pracinha. Saltaram uns seis meganhas fortemente armados,
cercaram minha mesa e me mandaram levantar para uma revista, alegando busca de
armas. Ainda perguntei, porque só eu? E
os outros frequentadores? A intenção era na verdade me identificar, saber
exatamente quem era aquele ‘forasteiro’ abusado que se imiscuía nos negócios do
patrão,- o deputado escroto Zé Gerardo! Naquele momento senti uma saudade
imensa da Bahia.*
*(Um ano antes residira na cidade de Valença,
e era de costume a viatura do bairro revistar todo cidadão que estivesse na rua
após a zero hora. Como eu só retornava da Lan house uma da madrugada, era alvo
de constantes revistas. Até o dia em que me aborreci e passei a tesoura
arrancando os bolsos de minhas bermudas. Dito e feito. Fui parado para a
revista e o PM baiano, um negão 3 por 4, enfiou a mão em meu bolso. Foi tudo,
mão e braço no vazio do bolso, e o negão apalpando o ‘ meu Zezé, a cabeleira do
Zezé e o saco de dormir’. Nunca mais fui parado na rua. )
Depois dessa revista mais que suspeita e
direcionada, percebi que era acampanado por dois elementos que passavam horas
no trailer consumindo uma única garrafa de coca-cola: era sintomático ! Não
demorou muito para sofrer dois atentados: uma perseguição automobilística no
Cocó, da qual escapei graças a uma bandalha na pista e uma outra mais
contundente, uma simulação de acidente com ‘atropelamento programado’.
Neste último fora avisado com
antecedência por um amigo, enfronhado na política local e uma outra informação
mais detalhada vinda de uma figura meio sinistra que encontrava-se na cidade
dizendo-se a serviço da ‘ABIN’(???). Dizia que estava rastreando um poderoso
esquema de roubo de cargas envolvendo políticos e empresários do ramo de
supermercados. Se apresentara com o nome de Arakén somente: Quanto a mim,
segundo ele, tratava-se da articulação de um venéreador do PCdoB e de um
deputado do PMDB, com o fito de minha eliminação física. Para a execução do
“serviço” um grupo de extermínio ligado ao primeiro, denominado “PACOTE DO SAL”.
Pela obra concluída seriam pagos 40 mil reais. Foi programado para às vésperas
do aniversário da cidade. Segundo o informante, já estava sendo organizado um
churrasco ‘comemorativo’ na localidade conhecida como Garrote. Com um detalhe:
o serviço não poderia ser executado nos padrões convencionais. Teria que
parecer um acidente, por isto o atropelamento. E acabaram atropelando... o cara
errado e não eu, para minha sorte. E eu explico porque.
Naquele tempo, me utilizava dos serviços de um
motoboy, que me conduzia para fazer ‘diligencias’, fuçar a podridão .
Chamava-se Junior, o ‘Pantera’. Ele ficava empolgado com minhas histórias e
escaramuças. Fazia questão de me conduzir a qualquer canto, em qualquer horário
do dia ou da noite. Acho que ele se achava um super-herói em prol da causa. E foi,
pois correu muitos riscos, era corajoso. Bastava eu me sentir ameaçado, que
bastava ligar para o Pantera: em 5 minutos o paladino da justiça chegava em sua
Honda 125 para me resgatar. Cobrava só 3 reais, mas eu pagava 10. Merecia! Mas
ele tinha um grave defeito, o qual eu soube explorar muito bem: ele tinha uma
língua de trapo. Quando eu queria disseminar alguma notícia relevante ou
disparar algum balão-de-ensaio, chegava para ele e dizia...”Pantera é em off,
só entre nós”. Em pouco tempo a coisa já era de domínio público.
Aquela atmosfera de completa submissão do
povo, o medo com que as pessoas falavam sobre as coisas da Prefeitura foram me
enervando. Fui ficando abusado, não respeitava mais os protocolos de segurança.
Se era órgão público, eu não queria nem saber. Metia a mão na maçaneta e ia
entrando sem pedir licença. Devido ao meu destemor e ousadia, corria um boato
na cidade de que eu era um ‘federal’. Não confirmei nem desmenti... era
conveniente.
Foi quando conheci uma figura fantástica. Um
policial civil, que de tanto ouvir falar de mim se tornou meu fã(e eu dele).
Era educadíssimo. Adorava um Campari e era um finess. Dividia seus horários
entre o plantão policial e as aulas que ministrava na faculdade. A semelhança
era tal que mais parecia ser gêmeo univitelino do Lulu Santos. Dizia para mim:
qualquer problema, tamos aí.
Onde me via parava a viatura no meio do
transito para cumprimentar. Não sei se por desinformação(ou informação
truncada), ou até mesmo por pura sacanagem passou a me chamar de ‘Doutor’. E o
Pantera ouviu. Taquiopariu ! A coisa se espalhou como rastilho de pólvora.
Quando cheguei na papelaria a menina virou e
disse: o doutor vai querer as cópias frente e verso? No Fórum passei a ter
transito livre para fazer vistas nos processos e tirar cópias. Ainda sobrava
tempo para paquerar Joelma, uma bela serventuária da Justiça. Lá do mercado, o
peixeiro (o Jorge) gritava, do outro lado da rua: Doutor, guardei uma curimatã
ovada fresquinha pro senhor ! Minha casa passou a ser frequentada pelos desassistidos.
O Pantera por conta própria, levava pessoas em busca de orientação por seus
direitos. Minha casa virou um CDH, uma ONG . A coisa se espalhou de um jeito
tal que não dava mais para desfazer. Fui promovido pelo clamor popular: eu já
era Doutor, embora aposentado.
Se me faltava um crachá ou credencial para
legitimar o meu novo status, um amigo da SEFIN- o Wolgan, resolveu o problema
me dando de presente um boné da DRT/MTb. Era preto e nas laterais os dizeres
‘Poder Judiciário’ no outro a bandeira brasileira escrito 'JUSTIÇA', e ao centro o ‘brasão da
República’. Era um simples boné de vigilante, mas em terra de cego, quem tem um
olho ...
o boné do "Delegado"
Aquele boné valia ouro. Por um lado causava a
falsa impressão de meu vínculo com o Judiciário e por outro legitimava o boato
elevando-o ao status de ‘verdade’. Só tirava o boné na hora de dormir.
No buteco onde eu frequentava, o bar do seu Zé Américo,- point da política local, havia um dos frequentadores eu de fato era agente federal inativo, - o Ferreirinha, com quem eu trocava papos de igual para igual, como se fossemos colegas de corporação. Tomavamos nossa cervejinha, discutíamos sobre segurança pública, e ele jamais me pergutou detalhes de minha "vida funcional". Era muito boa praça esse Ferreirinha.
Que rebuliço não causaria o assassinato de um
graduado agente da lei? Imaginar a chegada dos homens de preto para investigar
um crime desta magnitude seria deveras inconveniente.
Creio que este foi o motivo maior para que o
grupo político ao tramar por minha eliminação física optasse pelo sinistro com
características de acidente e não o de uma execução.
Assim sobrevivi para contar esta historieta de
como me tornei um Genérico de Delegado . Um legítimo Delegado Federal made in
Paraguay, com seu boné de vigilante, que admirava a beleza das mocinhas e bebia
vinho ao som do Lago Azul de Pacarahy, completamente contaminado pelo vírus
revolucionário do Socialismo Científico.
“ eu vejo o futuro (presente)
repetir o passado, eu vejo um museu de
grandes novidades .O tempo não pára. Não pára, não, não pára !” (Cazuza/Arnaldo Brandão)
Preâmbulo
Muitos sonham
com a factibilidde de um tal ‘ elixir da juventude ’ , ou mesmo a possibilidade
do transporte de matéria , através de um hipotético túnel do tempo.Puro devaneio daqueles que se perderam em
anos : a Roda do Tempo e da História só se move em sentido único !
Mas há que se
falar em repetição histórica. E ao que me parece, vivo isto neste exato
momento: na beirola dos sessenta e
caminhando célere para bater a cassuleta, ainda assim me sinto como Fênix, - renascido : com o fôlego , desejos e volúpias daqueles
meus saudosos 25 anos de idade . O trabalho, as conjecturas, o estudo, a História como fonte para a transformação,
e agora a volta do brilho nos meus olhos. Enfim, só mudam mesmo a conjuntura e as personagens.
Ao iniciar a
compilação deste modesto texto, rememoreitardes inenarráveis , nos idos de 1981. O chopinho e o quibe crú com coalhada no Restaurante Rio
Safita (na Glória) em companhia do amigo Adamastor Camará, e dali as esticadas até
o apartamento de Darcy Ribeiro, no Leblon. Era o máximo estar ali rodeando a
nata do pensamento crítico nacional : Darcy, Houaiss, Adamastor, Grisoli, Scliar,
e às vezes Wadi Salomão. Eu não dava um pio, um pum sequer ! Sorvia cada
intervenção, conjectura , a retórica de cada
um daqueles monstros da cultura, suas réplicas e tréplicas. Tudo sempre regado
a um bom uísque importado. Haviam pausas e às vezes algumas representações cênicas
de xavantes ou txucarramães seminús, que costumavam se hospedar no apê de Darcy.
Lá pelas tantas, eu deixava o Adamastor na Sá Ferreira, onde morava, e retornava à Itaboraí, no fusquinha que ele me emprestava, rumo ao sítio em Badureco.
1981, o meu
ano, que não terminou,... ainda !
da Série " Isto é História " nº 14/2015
( grifos meus, em negrito. Notas, adendo ou comentário meu, em vermelho) A presente postagem faz parte de uma série de publicações específicas, - iniciada em 09/01/2015 com a história da ex-escrava Elisiária da Conceição-, totalizando 13 (sem esta) com 956 visualizações, versando sobre os primórdios do Vale e Sertões do Macacú, da antiga povoação do Cassarabu, cujo primeiro registro notável , data da década 70 do século XVI , e descreve a expedição de Padre Antônio Vieira ao aldeamento dos índios de São Barnabé, pelos cursos do Aldêia e do Macacú.
¹ provavelmente haveremos de encontrar algum registro anterior a este sobre expedições francesas na barra do Macacú.
(vemos no mapa acima, o Rio Macacú, ao lado do Guaxindiba, (Manuscrito contendo coleção de mapas e notícias Soteropolitanas e do Espírito Santo ), .... e no extremo da Carta plotamográfica vemos ainda o S.Thomé e o saudoso e falecido Rio Doce.)
É lugar comum, atribuir-se a Vieira Leão, a primeira descrição detalhada da bacia hidrográfica do Macacu, datada de 1776. Outros também o fizeram posteriormente, como Saldanha da Gama , em 1819 e Mendes Antas, em 1855. Isto sem falar no Memorial Descriptivo do districto da extinta Vila de Santo Antônio de Sá (¹), elaborado pelo capitão-mór Francisco de Amorim Lima, em 1797, onde ele descreve a totalidade dos rios, córregos, riachos e lagoas, bem como as observações e descrições de Monsenhor Pizarro, e mais recentemente (séc.XX) por J. Mattoso Maia Forte e Alberto Lamego.
Hoje me ocuparei especificamente da questão dos pântanos do Macacú e suas febres paludosas .
No entretanto, para descargo de consciência, não posso deixar de antes traçar um paralelo entre as febres de 1828 e o desastre ambiental provocado pela Samarco em 2015, ( ambos criminosos )em face à similitude entre o extermínio de milhares de almas no séc. XIX em Macacú, no RJ, e a morte do Rio Doce, em MG, neste primeiro quartel do séc.XXI : a intervenção desastrosa do homem que coloca em perigo a vida de todos levando morte e degradação ao ecossistema.
Ontem um único e opulento indivíduo. Hoje uma poderosa corporação : do capitalismo primitivo ao selvagem, Domingos Leão e Samarco são farinhas de um mesmo e único saco. Não há mesmo que se falar destes dois eventos, tipificando-os como " acidentes " : ambas intervenções foram criminosas, levadas a cabo com iminentes riscos presumíveis !
Portanto, trago para leitura a transcrição de um memorial (ou Memória Descriptiva) datado de 1846, como sendo o primeiro estudo sobre as prováveis causas das febres de 1828, que dizimaram uma população inteira, trazendo ocaso e ruína a então fértil e promissora vila. Este estudo foi elaborado por Felício Fortes de Bustamante Sá., Chefe do 7º distrito de Santo Antônio de Sá, fazendeiro, publicista e político tradicional das plagas de São José da Boa Morte, onde sua família além de vastas propriedades , era detentora da maior Olaria da região, além da primeira (e única) tipografia em Macacú , no Primeiro Império.
O PROVINCIANO
FLUMINENSE: pela data de sua fundação, 1830, provavelmente teria sido o
primeiro periódico da região. Neste exemplar único microfilmado pela Biblioteca
Nacional em 1988, e datado de 1835, bem deteriorado, podemos ver em suas 4
páginas notícias interessantes, como o Edital proibindo que os negros saissem à
rua em dia santo, e à noite, caracterizando ainda, como crime, a reunião com
mais de seis negros em tavernas ou em via pública. Outra notícia interessante é
sobre o último guardião do Convento S.Boaventura, frei Theotonio de Sana
Humiliana, pleiteando recursos ao governo para cobrir as despesas com o
atendimento aos doentes "das febres", visto que o Convento fora
transformado em hospital. Na folha de rosto vemos onde era rodado: na Typografa
Macacuense, de propriedade do irmãos Alexandre e Felício Fortes de Bustamante
Sá .
Província do Rio de Janeiro
" Memória descriptiva dos pântanos do município de Santo
Antonio de Sá com a exposição das principais circumstancias que tornarão a sua
existência sensivelmente differente do seu estado primitivo, acompanhada de
algumas considerações sobre os inconveniente produzidos por esta mudança de
estado, e terminada pela indicação do meios de seu dessecamento. "
Descripção topographica d’estes
pantanos
Os municípios
de Santo Antonio de Sá, Magé e também o de Itaborahy são banhados por um
pântano que estende no sentido L O desde os mangues da Bahia de Nictheroy até a
freguezia da Santíssima Trindade do 1º município.
A parte que
pertence á Itaborahy principia em Itamby, que segue pela margem esquerda do rio
Macacú, envolvendo o do Porto das Caixas até o Arraial d’este mesmo nome,
dirige-se pela esquerda do Cassarebú, e termina no logar da Combica: esta parte
do pântano que se communica com o de Magé pelo rio Macacú até a foz do
Cassarebú, e com o Santo Antonio de Sá pelo mesmo Cassarebú até o logar da
Patitiba, à quem da Combica, cobrirá uma superfície de 400.000 braças quadradas.
A parte pertencente
ao districto de Santo Antonio de Sá, formando um saliente em contacto, com esta
pela divisa de Itaborahy, segue as sinuosidades do Cassarebú desde a sua foz até
a fazenda dos Palhares na Patitiba,, por uma superfície de 2.000.000 de braças
quadradas, communica-se com a de Magé no ngulo da confluência do Cassarebú e
Macacú, e d’ahi pela margem esquerda do Guapiassú desde a sua foz no Macacú até
os morros de Pirassununga, internando-se pelo município de Macacú na direção L
O até a freguezia da Trindade; tendo por limites ao sul a margem direita do
Macacú, e ao norte os morros de Pirassununga, Morobahy, Rabello e Pico, e
comprehendendo uma superfície de cerca de 18.000.000 de braças quadradas.
A parte comprehendida no districto de Magé, de
certo mais considerável, e tão nociva como esta, em contacto com as precedentes
pelos limites referidos a L e S, estende-se aos mangues na direção L O, e
termina nos terrenos elevados da Villa de Magé, e morros adjacentes à serra em
direção à Pirassununga,abrangendo uma
superfície de mais de 2 ¹/² léguas quadradas.
Os esgotos
naturaes destes páues são :no que
pertence à Itaborahyos rios Porto das
Caixas e o Cassarebú; na parte de Macacú, o rio d’este mesmo nome, o mesmo
Cassarebú, o Guapiassú, o dos Morros, o do Entulho, do Pinto, e do Trimerim; na
que toca aMagé os mesmos rios Macacú e
Guapiassú, Guapemirim, o Guarahy, o Magémirim, e o Magé. A exceção do Macacú,
Guapiassú e Magé, que entretem uma navegação activa, todos o mais, embora com
alguma navegação, como o Guapemirim, acham-se tão obstruídos de vegetais
aquáticos, e outros obstáculos, e suas águas tem tão retardado movimento, que
apenas se sente alguma corrente, parecendo que estão em perfeito equilíbrio.
Dizendo acima
que os pântanos do districto de Santo Antonio de Sá, se limitão ao sul pela
margem direita do Macacú, não quiz ommitir a existência de algumas ramificações
que se notão destacadas pela margemopposta,como sejão os brejos do
Riacho, Imbohy, Santa Anna, e outros menores, que todos se escoão no Macacú com
mais ou menos estagnação de fácil remédio.
Devo também
notar, que pela margem direita existem alguns comoros, ou logares mais altos,
por onde se praticarão os caminhos municipaes, como o de S. José da Boa Morte e
Trindade, que todavia offerecem péssimo e perigozo trânsito; porque quando não
estãosubmergidos acham-se no estado de
um continuado atoleiro : pelo contrário a margem esquerda é comparativa, e
geralmente muito mais alta, enchuta e consistente; e por isso com rasão tem
sido preferida de longa data para a passagem da estrada do Porto das Caixas á Cantagallo.
Observei ainda que a parte pantanoza
existente no districto de Magé é mais considerável, quea de Macacú, e igualmente nociva, como disse
acima; e isto não só em relaçãoà maior
superfície, que alaga e inutilisa, como e mui principalmente, porque estando
ella adjacente, pelos lados do Sul e leste à extincta Villa de S.José, Tambi,
Porto das Caixas, Villa de Santo Antonio de Sá e Pirassenunga, o
desenvolvimentto do principais deletérios, que occasiona, affecta tanto (ou
talvez mais) os habitantes d’esses logares, como os de Magé, que ficão no
extremo opposto, onde o pântano não é tão secundado, ou continuado como para
estes lados.
Seria muito
para desejar, que se tratasse de investigar as causas mais ou menos remotas,
próximas e constantes da sucessiva e gradual retenção das águas e elevaçãode seu nível, que nellas se nota, de maneira
que parece, que seu volume tenha aumengtado progressivamente; este estudo não
só traria a explicação do facto extraordinário, posto que geralmente desapapercebido
de se acharem hoje submergidos terrenos, que outr’ora, descobertos e enchutos
por grande parte do anno offerecião pingues pastagens e abundante productos de
lavoura, como forneceria mesmo á hygiene publica muitos conhecimentos de
incontestavel utilidade. Mas, pois que um estudo aprofundado de matéria tão
transcendente nãoo póde emprehender a minha débil intelligencia, estudo, que
essencialmente depende d sólidos princípios de geologia e medicina eu não
possuo; passarei ao objecto que me foi incumbido, aventurando todavia algumas
conjecturas á respeito.
Ilustração e litogravura de M. Bullock para o Theatre-Lyrique de Paris, 3º ato ' La peste du Brésil ' ( 1843)
Estado dos pântanos de Macacú há 70
anos pouco mais ou menos, comparado com o estado presente
Um fato bem notável,cujas consequências devião influir na maneira
de existird’estes pantanos,e que não forão previstas, teve logar em
Santo Antonio de Sá há perto de 80 annos,e vem a ser : O rio Macacú na altura da fazenda do Riacho dirigindo-se á
norueste, internava-se então pelo pântano e costeando os terrenos enchutos do
lado da Villa por uma curva de mais de légua de comprimento, vinha receber o
Guapiassú pouco abaixo do logar, que depois se chamou armazém, havendo
tomadodireção sudoeste passando entre o
Sambaquy de cima; e os terrenos, onde annos depois se estabeleceu a olaria dos
Fortes.
N’estas circumstancias a Villa tinha dous
portos, um sobre o Casserebú na fazenda dos Nascentes, mais frequentado, por
ser mais proximo, e outro mais afastado no logar do Moreira sobre o Macacú.
Ou para que a Villa possuísse a
comodidade de um porto immediato, ou por algum interesse particular, um dos
primeiros possuidores da fazenda do Riacho, Domingos Leão , emprehendeu levar
este rio á encostar áVilla; e com
effeito com o socorro dos Índios da aldêa de S. José de El-Rey realisou esta
empreza, abrindo um canal desdea sua
fazenda por terreno sempre enchuto, onde se enconstou, passando entre os morros
do Convento e da Peça, em cuja garganta annos depois se construiu uma forte
ponte sobre pegões de pedra, que ainda existem sob ruínas.
Este
accontecimento, de cuja veracidade não é lícito duvidar à vista de uma
tradicção constante e ainda testemunhal, dos indícios manifestos do antigo
leito, e da denominação de – Rio da Valla *,
- que ainda hoje conserva esta actual porção de rio, foi seguramentea principal origem das modificações, porque
há tempos coevos têm passado os pântanos, e todos os inconvenientes, que se tem seguido.
*Rio da Valla ou Valla do Almeirim como ficou conhecida ( denominação alusiva ao
estuário de mesmo nome - no antigo
Ribatejo, Portugal -, onde eram verificadas as incidências de obstrução do
leito e consequente mortandade de peixes.
Outro
facto igualmente importante se verificou a respeito do rio dos Morros ou do
Matto.
A
disposição do terreno em um Valle profundo, flanqueado por cordilheiras,
proximamente paralellas, similhantes e equidistantes; a inferioridade de nível
do leito d’este rioa respeito do de
Macacú; e a sua direecção quase central por entre o solo mais baixo deste
Valle, me induzem a suppôr, que em época ma is remota o Macacú se confundia com
este; por outra, que o rio dos Morros não existia, e que o leito primitivo do rio Macacú seguia esta direcção, a
mais própria, a meu ver, para a reunião commum de toda as vertentes e águas
pluviaes, de que provavelmente elle era o único e final esgoto. A mudança para
o estado em que o achou Domingos Leão, de certo preferível ao actual,
ter-se-hia operado, ou por algum effeicto natural, como uma grossa alluvião, ou
facticiamente, sobre o que existem alguns vestígios e vagas tradicções, como
quer que seja, o facto é, que o rio dos Morros, ou do Matto, não há muito tempo
aachando-se sufficientemente limpo e
desobstruído, offerecia navegação desde a sua foz no Guapiassú até a Lagôa
Morobahy, sendo esta navegação entretida pelos habitantes dos Morros, Rabello,
e outros logares; hoje porém acha-se tão obstruido e estagnado, que apenas em
grandes enchentes póde dar passagem a umaleve canôa.
Outro facto não menos interessante ao meu
objecto é o seguinte : - o rio Casserebú, ou a expensas da camara, ou dos
fazendeiros, conserv-se quase sempre limpo, principalmente desde a sua barra no
Macacú até a fazenda dos Nascentes, que era adjacente á Villa; sendo ahi um
porto muito frequentado, por ser mais suave a navegação pelo Casserebú, do que
pelo Macacú, cuja velocidade e muito maior, foi ahi qe desembarcarão SS MM. os
Srs D. João 6º e Pedro 1º, augustos progenitores do Sr D. Pedro 2º, quando se
dignarão visitarVilla de Santo Antonio
de Sá. De então para cá a navegação tem diminuído,as limpezas não se têm
renovado, e o rio acha-se ao presente no maior estado de obstrução e
estagnação.
O rio, ou antes a Lagôa Trimerim, nas
visinhanças da Trindade é um pego profundo, coberto de balseiras, que porisso em
vêz de dar esgotoaos brejos e pantanos adjacentes, lhes tornam as aguas estacionarias, com quanto façabarra no Macacú.
Finalmente as mattas abundavão nas
visinhanças da Villa, tanto nos terrenos enchutos, como nos alagadiços e
alagados, nos logares mais altos.
Depois
da discripção e exposição das circumstancias pretéritas e presentes dos pantanos
de Santo Antonio de Sá, e antes de entrar nos meios de seu dessecamento,
aventarei sempre algumas observações sobre o represamento e elevação do nível d’estas
águas, arriscando depois algumas conjecturas,á respeito das causas da apparição
espantoza e deplorável das
febres intermittentes perniciosas n’aquelle município em 1828.
Alèm
do aspecto, que descrevi d’estes valles cobertos de pântanos, a grande
quantidade de argilla que existe por quase todo o seu solo, é que deve ter sido
o producto da acumulação de lôdo e saibro ,consolidados pela pressão, e ela
acção dos phenômenos ígneos, me induzàaccreditar, que a última camada
do leito d’estes pântanos é de uma natureza sedimentaria composta dos depósitos
e detrictos conduzidos pelas águas correntes e fluviaes, que destacadas das
montanhas e terrenos adjacentes mais elevados pela queda, pressão e atricto das
mesmas águas lhe são fornecidos e extendidos pelas torrentes em maior ou menor
quantidade, segundo o maior,
ou menor volume das águas, e a velocidade de que são animadas; ora, como esta sedimentação se efectua tanto
mais, quanto diminue a acção locomotiva: isto é, á medida que se atenua a
velocidade das águas, accredito ainda, não só que o leito d’estes pântanos deve
necessariamente ter crescido, e se elevado, como que maior quantia de superfície
enchuta devem ter elles coberto. E na verdade, quaes as consequências necessárias
da desapparição dos canaes primitivos e naturaes, como o desvio do Macacú, obsrucção
completa do dos Morros, etc., sinão o reprezamento, a falta de escôo, e de
movimento das aguas d’estes páues, uma vez quea quantidade das que lhe são fornecidas não pode deixar de ter sido a
mesma ?
Enquanto se operarão pelo correr
dos annos todas estas modificações, que têm tornado a existência actual d’estes
pântanos tão differente da que tiverão em épocas mais remotas, os habitantes
de suas visinhanças ião successivamente sentindo os malignos effeictos da estagnação,
ou estacionamento gradual, que as águas pantanosas ião obtendo; de maneira que
os factos, e a tradicção nos dizem, que n’aquelles primeiros tempos erão desconhecidos
ou desapercebidos, por benignas e insignificantes as febres intermittentes
(vulgo maleitas ou sezões), e ainda em nossos dias vimos o municipio de Santo
Antonio de Sá populoso e opulento,e
considerado geralmente como um dos logares
mais sadios d’esta província, onde os doentes da corte procuravão e obtinhão
seu perfeito restabelecimento. O gráu porem de obstrução, a que ião attingindo
os páues, sua invasão crescente pelos terrenos enchutos, a progressiva
descoberta das mattas, as queimadas repetidas annualmente no tempo das secas,
que expunhão o lodo e a putrefacção vegetal, e mesmo animal, dos brejos ao
desenvolvimento de miasmas pela acção e presença immediata do sol; e muitas outras
causas enfim, que não estão ao meu alcance de assignar, tornarão cada vez mais
frequente a apparição das inermittentes, mais ou menos malignas; de sorte que
com o correr dos annos tal mudança, a meu ver, se operou na naturesa do clima,
que em 1828 ( na minha opinião as causas immediatas de tal acontecimento forão,
entre outras que ignoro, as que abaixo exponho ) houve uma espécie de explosão
tão terrível de febres perniciosas, que, como é sabido, raras pessoa deixarão
de ser feridas,e rara era aquella, que
não sucumbia em poucos ...dias.
quadro de Paulo Nunes/2000, que encontra-se jogado no chão da Casa de Cultura Heloísa Alberto Torres 2015
Grande
sêca havia preccedido á verdadeira calamidade publica, e, ou por acaso, ou pela
nociva rotina dos lavradores, grandes queimadas apareccerão; por toda a parte
sentia-sevoragem dos fogos, os pântanos
em grande parte secos, achavão-se descobertos; em fim o fumo produzido em tal
quantidade, que a athmosphera, grandemente d’elle saturada, movia-se em extensas e
espessas nuvens, occultando por toda a parte a presença do sol. Não deve
esquecer também a obra do aterrado de Tipotá teve então principio,
effectuando-seexcavação de uma valla da
extensão de 800 braças com as dimensões, que se destinavão à receber o rio
Cassarebú e por conseguinte o producto d’essa excavação achava-se exposto à
acção athmospherica, e nas visinhanças da Villa.
A’
vista do quetenho expendido, e de
outros dados que tenho ds circumstancias dos referidos pântanos, estou
inteiramente convencido de que todo o systema de dessecamento à se adoptar, que
não tiver por base a aproximação possível das circumstancias e que existirão os
mesmos pântanos, addicionando-se-lhe convenientemente os melhoramentos que
actualmentese tornão necessários, será inútil
e improfícuo; e n’esta persuação indico e proponho:
- Que o rio Macacú seja reconduzido
ao seu antigo leito na parte em que corria entre o pântano, e d’onde desviou
Domingos Leão; - Que este rio seja retificado por
cortes, quanto se possa, desde as cachoeiras atéa extincta Villa nova de S. José, e que se
lhe encanem por sarjetas todos os brejos ou lagoas de sua margem esquerda, quer
isoladas , que contiguas. - Que o rio dos morros seja
inteiramente limpo, desobstruído e canalisado por uma valla navegável desde o
Rabello atéa Trindade, onde terminará
na lagoa Treimirim; conduzindo-e á esta
valla pelos convenientes ramaes todas as aguas dos brejos e lagoas, que existirem
lateralmente não contiguas. - Que em frente, e na direcção da foz
d’este rio, se abra igual valla
em direcção o rio Guarahy nos mangues, onde terminará; praticando-secommunicação d’esta valla com os riachos
existente entre o Guapimerim e o Macacú, por meio de ramaes transversaes. - Que o rio Guapissú seja encanado
par o Guapimerim abaixo de Pirassenunga. - Que o Cassarebú seja levado em
uma linha recta desde a volta da Figueira na fazenda de Joaquim Ferreira Lemos te
logo abaixo do Sambaquy grande, dando-se-lhe d’est’arte outra foz no
Macacú;que parte de suas águas sejão
desviadas para o rio Porto das Caixas, praticando-se uma valla com comporta no
Tipotá; e que d’esse logar para cima até a fazenda do Ledo todos os brejos e lagoas
lateraes se lhe encanem por convenientes sargetas. - Finalmente, e em geral, que todos
os brejos, lagoas e alagadiços, sejam sarjados e ccommunicados aos rios e
vallas, de que forem mais visinhos, conservando-se estes esgotos em perfeita
limpeza.
Nictheroy,
8 de janeiro de 1846.-Felício Fortes de
Bustamante Sá, chefe do 7º districto.